sábado, 29 de outubro de 2011

A necessária reaproximação da relação Educação e Cultura

No Seminário de Políticas Públicas para as Crianças do qual participei em Fortaleza dias 19 e 20 passados, estavam alguns representantes do Ministério da Cultura (MinC), dentre os quais, Sergio Mamberti, Secretário de Políticas Culturais – expondo o Plano Nacional de Cultura (PNC – cujo debate público se encerrava naquele mesmo dia); Claudia Leitão, Secretária de Economia Criativa (que falou sobre Cultura de Desenvolvimento Local) e, ainda, a Cristiane Abramo, da Diretoria de Educação e Comunicação da Secretaria de Políticas Culturais, cuja fala intitulava-se “Educação, Cultura e Comunicação na Infância”.
Mamberti preocupou-se em começar contextualizando que a separação do Ministério da Cultura em relação ao Ministério da Educação (MEC – lembram que esse “C” é de “Cultura”?), em 1985, deu-se no sentido de buscar iluminar as especificidades da Cultura – e não para afastá-la da Educação, como acabou ocorrendo. Na realidade, esse afastamento e a percepção da Cultura como estando em segundo plano ficaram mais evidenciados desde a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB 5692/72), que acabou por colocar a Cultura como uma espécie de “cereja do bolo” – algo que adorna, que tem caráter supérfluo.
Hoje o MinC está fazendo um movimento de volta, buscando uma (re)aproximação entre os Ministérios – mas uma aproximação revestida de ações concretas, propondo então uma Política Nacional de Cultura para a Educação (para isso foi criada a Diretoria de Educação e Comunicação). E como sabem que as crianças passam um significativo tempo de suas vidas na escola, elegem-na como foco dessa Política, juntamente com seus profissionais, de maneira a atuarem no sentido de favorecer (re)inserção da cultura dentro da escola pública. Afinal, existe a clareza de que o tripé da democracia toma como base a educação, a cultura e a comunicação – esta última entendida como veículo de acesso.
É uma mudança importantíssima no protagonismo. Claudia Leitão frisou bastante: a Cultura é um a priori para a Educação; ela pode (e deve!) ser transformadora! A Secretária de Economia Criativa ressaltou ainda que a busca que se está fazendo é de “religar” os conhecimentos; de perceber que a noção de transversalidade é fundamental na Política Pública e, dessa maneira, sublinha que a importância do supracitado PNC e suas metas está na descentralização e, consequentemente, no esvaziamento do fosso segregacionista ainda imperioso em nosso país; que a Cultura é a única possibilidade de integração da diversidade.
Quando se trata de criança, a postura dos palestrantes foi uníssona: crianças requerem respeito, dignidade e condições de cidadania. Nesse sentido, faz-se necessário que o MinC encampe uma dimensão mais ampla de Cultura; que abrace a diversidade a partir de uma Cultura da Paz; que se consubstancie como um espaço de compartilhamento de ideias e experiências; que a Cultura seja entendida e vivida como a expressão mais profunda de um povo, como expressão de cidadania. Quando falam do Brasil, externam que a pluralidade seria o elemento mais forte de nossa identidade cultural; e que é muito importante que o Brasil (leia-se aqui: todo o povo brasileiro) se veja refletido em sua Arte e em sua Cultura (o que também passa pela autoestima!) – e dessa forma, não se pode pensar um novo país, sem pensar na cidadania de suas crianças. Nesse sentido, profissionais militantes da Cultura da Infância reivindicaram, no ato, a criação de um Plano Setorial da Cultura da Infância, no interior do PNC, de maneira a não deixar que se perca, por estarem diluídas do todo, as urgências e especificidades das crianças (essa sugestão é fruto de longos debates e empenho de diversas pessoas que, dia a dia, lutam pelas condições de trabalho na área).
Em seguida, ouvindo atentamente a fala de Cris Abramo sobre o Plano Nacional de Cultura para a Educação, outras questões me sacudiram – e partilho-as com vocês. Concordo que é urgente e necessária a (re)aproximação e(re)abertura do diálogo entre cultura e educação (confesso nem entender como uma pode atuar descolada da outra...); bem como acho bem produtiva a escolha da escola como ponto focal de ações nessa direção. Mas aí acho importante ter a clareza de que o que tem que ser defendida é a aproximação dos atores sociais da escola – crianças, jovens, adultos (alunos, pais e profissionais) – com as diferentes manifestações e esferas da cultura; e não a criação de uma (sub)cultura escolarizada!
Já temos aquilo que chamamos de cultura escolar – que se refere tão somente aos modos de ser, agir e pensar que permeiam as propostas e currículos escolares; o que me interessa ver nessa Política é a permeabilidade dos muros escolares: que a vida, hoje incrivelmente externa à escola, possa entrar e contaminar aquele ambiente; possa trazer sentido às suas práticas; possa encher de novos saberes e dizeres aquele lugar tantas vezes monocórdio; abrir os olhos e ouvidos de tod@s ali presentes; possa fazê-los perceberem-se como sujeitos criativos e críticos... E nesse sentido, que defendo que a Arte e a Cultura possam adentrar o campo escolar como dimensões intrínsecas e indispensáveis à formação de tod@s @s cidadãos/ãs. Afinal, a Arte, como a própria Cris ressaltou em sua fala, é campo do conhecimento e como tal deve ser tratada com inteireza – e ela também requer nossa inteireza para fruí-la! Muito por isso, entendo que nada justifica que a Arte entre na escola subserviente aos princípios e necessidades escolares, sob pena de tornar-se uma arte escolarizada, menor: como teatrinho, historinha, pinturinha, cineminha... O diminutivo com que apelidamos expressões artísticas dentro das escolas já denota seu encolhimento e a diminuição de sua importância frente aos pressupostos curriculares ali reinantes.
Confesso que não penso na escola na terceira pessoa – “ela” – como se não tivesse visceralmente imbricada nela; falo na primeira pessoa do plural – “nós” – porque, seja como alun@s, seja também como profissionais ou pais/mães de alun@s, tod@s estivemos e/ou estamos ligad@s a ela. E por isso essa causa é tão importante e central! E é falando nesse “nós” que digo não ter dúvidas que a escola precisa (urgentemente!) reinventar-se; precisa repensar seus modelos medievais copistas de transmissão de conhecimento; sua hierarquia de saberes; seus ritos e mitos. Mas por que estou dizendo isso?
Porque na fala da Cris aparece que essa nova política, proposta e estruturada pelo Ministério da Cultura, deve visar, entre outras coisas, também tornar a escola mais atrativa para o educador e para o aluno! No meu entender, isso seria um desvio de rota: a Arte e a Cultura não devem se sujeitar a aproximar-se da escola para torna-la mais palatável – esse desafio cabe à escola, num movimento de implosão e reconstrução. A Arte e a Cultura não têm mais que ser a “cereja do bolo”; não são acessórias – são centrais; são protagonistas que estão se dispondo a dividir o palco, a abrir novas portas e janelas para os atores sociais das escolas; são, sem dúvida, importantes para a noção de pertencimento dos sujeitos, mas para tal elas próprias – Arte e Cultura – não podem perder seu eixo e sua essência.
É seguindo essa lógica que me incomoda tanto ver que um dos objetivos específicos dessa Política da Cultura para a Educação é fazer uma educação mais atrativa, instigante e desafiadora por meio do acesso das crianças aos conteúdos, atividades e práticas artístico-culturais, dentro e fora da sala de aula. Adiante, de novo, Cris nos falava sobre a necessidade de desenvolvimento de metodologias para a incorporação de conteúdos e práticas culturais como fonte de subsídios enriquecedores para o ensino e a aprendizado para outras áreas, como português, matemática etc. Essa estratégia, com a qual poderíamos até imaginar que lucram alunos e a escola em geral, corrobora para a perda de força da Cultura e da Arte. A Arte e a Cultura não são meio... Elas têm fim em si mesmas (afinal, não acabamos de afirmá-las como área de conhecimento?)! E isso que falo aqui não é novo, tampouco inédito...
“(...) ‘arte-educação’ – nome cunhado num momento marcadamente histórico, nos anos 60, 70 do século passado, para designar o movimento encampado por artistas em busca do diálogo com a educação. Essa aproximação acabou criando uma terceira esfera que já não era a da arte e tampouco a da educação como tal – algo que se parece mais com uma adjetivação para propostas pedagógicas que se usam da arte; portanto, que fazem o chamado trabalho de educação através da arte... Defendemos, diferentemente, que a arte tem seu status próprio e que não deve ficar a serviço da educação ou nela enclausurada” (OSTETTO, Luciana Esmeralda & LEITE, Maria Isabel. Arte, infância e formação de professores: autoria e transgressão. São Paulo: Papirus, p.13 – itálicos no original; negritos meus).
Intriga-me, então, que o mesmo documento que subjuga a Arte colocando-a como ponte/ meio/ veículo através do qual a escola melhorará seu desempenho, também atesta a importância da formação estética, da história cultural e das artes, da economia criativa etc. – o que soa tão pertinente e interessante! Parece-me, portanto, que estamos colocando no mesmo saco questões paradigmáticas diferentes – e, sob meu ponto de vista, isso mereceria ser revisto.
Sinceramente, acho mesmo uma ilusão acreditar que vamos aproximar Arte/Cultura da escola sem tensão ou enfrentamento. Basta lembrarmos que, conceitualmente, a Arte pressupõe transgressão; e a escola é alicerçada na normatização. Mas também acho que a defesa pela inserção da Arte e da Cultura (com suas especificidades e inteireza!) no âmbito escolar deva se centrar na ideia de problematizar e desconstruir a atual hierarquia e fragmentação dos saberes e conhecimentos – mas isso não se faz colocando um para subsidiar/subvencionar o outro e, sim, contextualizando suas singularidades; mostrando sua importância e riqueza – afinal, o que nos torna humanos é justamente nossa Arte e nossa Cultura. Portanto, defendo que essa aproximação se dê abrindo a escola para a entrada da Arte e da Cultura; da vida – e levando aos atores sociais da escola a também frequentarem e se apoderarem dos equipamentos culturais existentes (museus, cinemas, teatros etc.), sem dar a eles uma dimensão de ensino, mas sim de aprendizagem, descoberta e encantamento.
Ora, já foi o tempo em que os equipamentos culturais eram pensados para poucos privilegiados das elites. Acreditava-se que apenas a Cultura Erudita tinha valor e que esta era feita por e para poucos. Assim como as da Cultura, também as instituições de Educação eram estruturadas para um público seleto. O propagado objetivo “educação para todos” não existia. Foi justamente esse jeito de ver, pensar e agir em relação à Cultura e à Educação que nos lança  hoje nesse desafio imenso de suplantar os abismos que se formaram em função de políticas anteriores tão segregacionistas e excludentes, e pagar a dívida histórica que esse país deixou com as camadas excluídas sócio, cultural e educacionalmente. Como poetiza e canta Marisa Monte em sua música Comida, “A gente não quer só comida/ A gente quer comida, diversão e arte”. Além de comer – que é imprescindível! – a gente quer mais... e para todos e todas.
Bem, fazendo aqui um recorte na área da Cultura, viabilizar que as diferentes manifestações culturais circulem em todos os cantos é ótimo, mas não basta: democratizar e dar acesso é fazer com que todas as pessoas possam apropriar-se das e expressar-se nas diferentes formas culturais. “A gente não quer só comida/ A gente quer bebida, diversão, balé”. As Políticas de Cultura devem contemplar as diferentes regiões do país e não apenas os grandes centros (como bem falou Claudia Leitão sobre a importância da municipalização etc.); apoiar e iluminar as múltiplas expressões culturais manifestas nos diferentes tempos e espaços; acolher a diversidade... pois “A gente quer inteiro e não pela metade”.
Mas como esse blog fala prioritariamente de museus, cabe aqui um recorte ainda mais específico em torno dessas instituições: democratizar e dar acesso aos museus não é apenas liberar a entrada – isso é importante, mas também não basta. Democratizar e dar acesso aos espaços museais é fazer com que cada sujeito que entre naquele museu sinta-se acolhido por ele; possa ver e ver-se no museu; desafie-se a construir ali uma relação de identidade e de alteridade; constituir redes de pertencimento naquele lugar. Para isso, faz-se necessário incentivar programas de formação permanente; projetos de acessibilidade; ações de acolhimento voltadas aos diferentes públicos; estabelecimento de parcerias, e entre outras coisas, repensar a relação escola-museu!
Mas pensar as políticas culturais em geral, as museais em particular, nos coloca ainda diante de questões-chaves: o que, aonde, para quem... Questões que não devem mais ser respondidas pelos mesmos – sob pena de manutenção do status quo. Questões que solicitam o diálogo com o outro, com o diferente de mim. Pois só despindo-nos de nosso olhar egocêntrico e incorporando firmemente a ideia de que o mundo não é só o nosso lugar e de que o outro tem desejos e necessidades que lhes são próprias e legítimas; que o outro é alguém que pensa, age, fala, portanto, produz e consome criticamente cultura – só com essa postura podemos avançar na democratização e no acesso aos bens culturais, em particular naquilo que tange às polícias museais. E isso nos joga face a face com o outro e faz com que, juntos, recoloquemos coletivamente a pergunta: “Você tem sede de que? Você tem fome de que”?
Notinha de rodapé: acabei não conseguindo colocar este post ontem, por isso o faço hoje, sábado. Na 2f tem reunião da Rede de Educadores de Museus de SC e por essa razão não farei postagem, mas na 3f darei continuidade a esse debate com o recorte: relação escola-museu.
Bom fim de semana!

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